Como foi escrever um romance como Entre Flor e Faca- Bastidores
- 8 de set.
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de set.
Escrever um romance nunca é apenas sobre contar uma história. É, antes de tudo, sobre sentir. Sobre se deixar atravessar pelas dores e pelas belezas que a vida guarda e, de alguma forma, traduzi-las em palavras. Foi exatamente isso que aconteceu com Entre Flor e Faca, um livro que nasceu de uma inquietação: como o amor pode sobreviver ao peso do passado, da memória e da culpa?
Desde o início, eu sabia que não seria uma narrativa simples. Queria que fosse visceral, que trouxesse tanto o perfume delicado das flores quanto o corte profundo das facas. Por isso o título carrega essa dualidade — a ternura e a violência, o afeto e a ferida.

O ponto de partida
Tudo começou com a imagem de duas adolescentes em uma biblioteca escolar nos anos 70, época da ditadura militar. Essa escolha não foi à toa: a repressão e o medo eram o pano de fundo perfeito para uma história de amor proibido, clandestino, escondido entre livros de poesia. Eu me perguntava: como seria amar alguém nesse contexto, quando até mesmo a liberdade de pensar já era considerada perigosa?
Elisa e Clara nasceram desse questionamento. Duas jovens que, à primeira vista, não tinham nada em comum. Elisa, filha de artistas, espontânea e sonhadora. Clara, filha de militar, rígida, moldada pelo peso da disciplina. A tensão entre elas era inevitável. E foi dessa tensão que nasceu o desejo, um amor que floresceu onde não deveria florescer.
A estrutura fragmentada
Outra decisão importante foi alternar passado e presente. Em Entre Flor e Faca, o tempo é quase um personagem. O leitor transita entre os anos 70, quando Elisa e Clara descobrem o amor em meio à repressão, e os anos 90, quando se reencontram já adultas, carregando cicatrizes, silêncios e escolhas não ditas.
Essa estrutura permite que a narrativa mantenha suspense e profundidade: cada lembrança no passado dialoga com um dilema no presente, como se o tempo nunca tivesse realmente fechado as feridas.
O desafio das personagens
Clara talvez seja a personagem mais complexa que já criei. Ao mesmo tempo vítima e cúmplice de um sistema opressor, ela é uma mulher que aprendeu a sobreviver escondendo sentimentos. A dureza herdada do pai militar contrasta com a sensibilidade que só Elisa conseguiu despertar.
Já Elisa, apesar de mais aberta e apaixonada, também tem suas sombras. Carrega a dor da perda da família, da perseguição e do exílio. Mas também traz dentro de si uma chama que nunca apagou, mesmo após anos tentando se reconstruir ao lado de Ricardo.
O maior desafio foi justamente esse: construir duas mulheres reais, cheias de contradições, capazes de amar intensamente, mas também de ferir.
A escrita como catarse
Cada capítulo foi escrito como se fosse uma confissão. Houve dias em que as palavras escorriam fáceis, como se eu apenas transcrevesse algo que já estava pronto dentro de mim. Em outros, precisei parar, respirar fundo e reviver dores antigas para conseguir dar voz às personagens.
Muitas cenas foram inspiradas em poesias que marcaram minha vida. Drummond, Gibran, Neruda — todos estão presentes nas entrelinhas, como testemunhas desse amor que desafia o tempo e a lógica. A cada citação, quis que o leitor sentisse não só a beleza dos versos, mas também a carga emocional que eles despertam em Elisa e Clara.
O amor como flor e faca:
No fim, Entre Flor e Faca é sobre um amor que nunca desaparece, mas que também nunca é simples. Um amor que cura e fere, que salva e condena. Elisa e Clara são duas mulheres que se amam apesar de tudo, mas que precisam lidar com as consequências de escolhas feitas sob pressão.
E talvez o maior segredo desse livro esteja justamente aí: entender que existem dois tipos de amor — o amor da sua vida e o amor para a sua vida. Clara será sempre o amor da vida de Elisa. Ricardo, o amor para a vida dela. Essa distinção é dolorosa, mas também profundamente humana.
O que vem pela frente
Compartilhar esses bastidores é quase como abrir meu próprio diário. Mas acredito que todo livro só se completa quando encontra seus leitores. É com vocês que Entre Flor e Faca vai, de fato, ganhar vida.
Nos próximos artigos, vou revelar os bastidores da criação de cada capítulo — as escolhas, os cortes, as inspirações e os dilemas que enfrentei durante a escrita. Quero que vocês caminhem comigo por trás das cortinas dessa história, entendendo não só o que acontece com Elisa e Clara, mas também o que me levou a escrever cada detalhe.
📌 Palavras finais: escrever Entre Flor e Faca é como segurar uma rosa de espinhos. Dói, mas também perfuma. Espero que cada página provoque em vocês a mesma mistura de dor e beleza que provocou em mim.



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